Em 1995, o escritor Caio Fernando Abreu, então colunista do jornal O Estado de São Paulo, publicou uma carta que teria sido escrita por Clarice Lispector a uma amiga brasileira. Ele comenta, no artigo, que não há nada que comprove sua autenticidade, a não ser o estilo-não estilo de escrita de Clarice Lispector. Ele dizia: "A beleza e o conteúdo de humanidade que a carta contém valem a pena a publicação..."
Berna, 2 de janeiro de 1947
Querida, Não pense que a pessoa tem tanta força assim
a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma.
Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso -
nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício
inteiro. Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria
dizer é que a gente é muito preciosa, e que é
somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si
própria e se dar aos outros e às circunstâncias.
Depois que uma pessoa perde o respeito a si mesma e o respeito às
suas próprias necessidades - depois disso fica-se um pouco
um trapo.
Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar e contar
experiências minhas e dos outros. Você veria que há
certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação
a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou
agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu
novo caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para
você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou
avião que nos leva de volta eu me transforme instantaneamente
na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar.
Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que
me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas.
Você já viu como um touro castrado se transforma num
boi? Assim fiquei eu... em que pese a dura comparação...
Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas
repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei
em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso
cortei também minha força. Espero que você nunca
me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero
que no navio que me leve de volta, só a idéia de ver
você e de retomar um pouco minha vida - que não era maravilhosa
mas era uma vida - eu me transforme inteiramente.
Uma amiga, um dia, encheu-se de coragem, como ela disse e me perguntou:
"Você era muito diferente, não era?". Ela disse
que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora
se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então
ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra
pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinqüenta
anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus.
Não haveria necessidade de lhe dizer, então. Mas não
pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa
que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital
de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite mesmo o que
é ruim em você - respeite sobretudo o que você
imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não
queira fazer de você mesma uma pessoa perfeita - não
copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único
meio de viver.
Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou
por covardia - será punida e irá para um inferno qualquer.
Se é que uma vida morna não será punida por essa
mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e
o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece
uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é
ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite
em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha
vida sem eu saber. Isso seria uma lição para mim. Ver
o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma.
Tua Clarice
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